Legitimidade para dar e receber


Sempre fui daquelas pessoas que prefere não receber nada, daquelas que, de cada vez que alguém propõe uma oferta, recusa insistentemente. Até que percebi o egoísmo que era fazer tal coisa.

De todas as vezes que me ofereciam fosse o que fosse - desde um café a uma prenda cara -, eu recusava. Fazia-o porque o meu primeiro pensamento era uma avaliação da minha capacidade para retribuir no mesmo valor. Ora, para nunca ficar a dever nada a ninguém, preferia não receber nada. Dessa forma garantia que tinha saldo zero com todas as pessoas e que não teria que, mais tarde ou mais cedo, obrigatoriamente retribuir-lhes a oferta.

Sempre parti do pressuposto que tudo o que me ofereciam tinha por intenção uma retribuição - monetária ou não. Mas se eu pensar nos motivos pelos quais ofereço alguma coisa a alguém, rapidamente percebo que, não só é possível, como o normal é oferecer "porque sim". Se eu não quiser dar, não ofereço. Não o faço pura e simplesmente à espera de ter algo em troca, até porque quando ofereço é numa lógica de "agradecimento", não de incentivo ao quer que seja.

Demorei a perceber tudo isto. Mas agora percebo também porque em algumas culturas não é bem vista a recusa de uma oferta. Quando damos deve ser com gosto, e estamos tão no direito de o querer fazer como o destinatário de o querer recusar. Porque é que a pessoa a quem queremos dar determinado presente há-de ser "mais nobre" por declinar do que nós por querermos oferecer? Porque é que alguém em Portugal se sente mais ofendido por uma oferta do que a pessoa que vê a sua oferta recusada? Não faz sentido. Ambas têm igual legitimidade para agir como entenderem. E se a satisfação de alguém está no acto de dar, porque havemos de recusar esse prazer se isso em nada nos prejudica directa ou indirectamente?

Se realmente me oferecerem espontaneamente alguma coisa, não vou estar com medo de uma cobrança futura a priori. Ficarei agradecida. Se fazem gosto, se acham que mereço, é legítimo que queiram demonstrar tudo isso da maneira que melhor acreditam cumprir a tarefa. Não foi um pedido meu, foi uma oferta. E eu não sou mais que ninguém para impedir a "felicidade de dar".

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