Diário de uma solteira | O piropo

Fonte: Pinterest

Sim, o piropo vai para as solteiras, comprometidas, casadas, divorciadas, em situação "é complicado", mulheres no geral. Mas porque é que catalogo este tópico como "Diário de uma solteira"? Porque, em comparação, as mulheres desprovidas de relação conjugal acabam por estar mais sujeitas a estas situações do que as mulheres que se podem fazer acompanhar pelo seu cônjuge. Pois vejamos: sempre que uma miúda está acompanhada do seu namorado, não há piropo que se ouça nem à distância, quando não há namorado, é um festival de boquinhas azeitolas que só desperta uma súbita vontade de distribuir o tão tradicional e educado manguito.


Ah e tal que: "as miúdas solteiras se estiverem acompanhadas por um amigo homem também já não acontece". Isso é que era bom! O profissional do piropo topa à distância qual é a nossa relação com as pessoas que nos acompanham. Verdade. Não lhe escapam os pormenores. E quando chega aquele momento certo, aquele momento em que acabamos de passar por ele, "záaas" - lá vem a boa da dica do "ourives" ou do "pai padeiro".

A questão aqui é: qual é o propósito? Um dia gostava de entrevistar um profissional do piropo. É suposto ofender-nos, elogiar-nos, perturbar-nos? Quanto ao propósito posso não ter grande ideia, mas quanto aos efeitos posso esclarecer: é ofensivo. Nós não andamos na rua a desfilar para homem algum e muito menos procuramos ser confrontadas com uma declaração inoportuna, inapropriada, decadente e ordinária (como quem diz: "javardolas"), que nos objectifica.

Estamos no século XXI. Tendo em conta a idade média do profissional do piropo, quero acreditar que isto será algo que vai cair em desuso, e espero que assim seja. Ouve-se um ou outro de um ou outro adolescente com a febre da rebeldia ou com a "mania que engata tudo e todas", mas costuma passar quando se apanham longe do grupo de amigos que querem impressionar com estas coisas absurdas. 

Mas desenganem-se se neste tempo todo em que falo de "profissionais de piropo" estão a fazer uma associação directa aos "homens das obras". Não é só o tipo sujo e rasgado que passa na carrinha de serviço, o tipo engravatado também pode ser profissional desta arte. Eles andam por aí, e não é uma classe social que os impede de o serem. É tudo uma questão de mentalidade. E enquanto o machismo prevalecer, temo que ainda tenha alguns piropos para ouvir nesta vida.

Será que estes homens não têm mãe, mulher, filhas, irmãs, primas, sobrinhas, afilhadas? Será que iam gostar de ver alguém como eles a "piropar" as mulheres das suas vidas?

Ainda que aqui o caso seja com casais, partilho convosco um vídeo da Cosmopolitan internacional que mostra a reacção destes homens aos piropos que as suas namoradas ouvem na rua. Acho que não há homem nenhum que, ao colocar-se neste papel, não perceba sobre o que estive aqui a escrever.

2 comentários :

  1. Infelizmente isto não acontece só às solteiras. Acontece a toda e qualquer mulher que ande pela rua sozinha, tenha ou não namorado ou marido. Por mim falo: já tive situações mesmo muito desconfortáveis tendo e não tendo namorado. O que sinto quando recebo o dito piropo? É difícil explicar mas o que é certo, é que não me sinto elogiada. Fico nervosa, sinto-me objetificada, reduzida e humilhada. Sinto que não deveria ter saído com aquela roupa por mais que goste tanto de me ver com ela. Que se calhar a culpa é minha porque deveria ter passado para o outro lado da estrada ao ver que estava ali um grupo de homens por quem ia passar do lado em que seguia. Só alguns segundos depois é que a minha consciência desperta. Mas porque raio não posso usar aquela roupa se gosto tanto dela e se reflete aquilo que eu sou? E porquê que tenho de atravessar a estrada para evitar uma atitude de desrespeito por parte de outras pessoas?

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    1. Concordo contigo, mas aquilo que tenho registado é que o piropo não está directamente ligado à forma como nos vestimos. Infelizmente terei que dizer que um decote maior ou uma saia mais curta "ajudam", mas mesmo quando pouca pele se avista, quando estamos de calças de ganga e casaco desportivo "largueirão", continuamos a ouvir piropos.
      É ridículo. A dada altura se calhar devíamos pedir desculpa por existirmos (not!).
      Esta sociedade ainda tem muito que aprender sobre cidadania.

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