O peso das perspectivas distantes e descontextualizadas

 Cais Palafítico da Carrasqueira

Eu não sou magra. Nunca fui. Ou assim sempre achei no tempo em que realmente o era.
É curioso como quando olhamos para nós mesmos tudo é tão tendencioso e não conseguimos distanciar-nos. Até que o tempo realmente nos distancia, mudamos principalmente no que vai dentro do crânio e passamos a ver tudo com outros olhos. Porque na realidade temos mesmo outra forma de olhar, e outra forma de ver.


Não sou hipócrita. Como a maior parte das miúdas em Portugal, ou na Europa, vivo o drama do peso. Vivo realmente sob essa ditadura da comida e da sua influência na estética - e não me venham com a história da saúde, porque isso são na realidade meras estórias. Sou consciente - e sei que outros também o são - de que, mais do que lutar para emagrecer, a verdadeira luta deveria ser contra esta ditadura. Não quero nem vou estar com contos líricos, nada disso. Mas a verdade é que, apesar da consciência, o inconsciente faz perder tantas oportunidades de se ser feliz e aproveitar tudo o que está diante de nós por um simples "é melhor não, sou gorda(o) demais para isso" - tantas vezes o meu inconsciente me grita estas palavras, e tantas vezes me questiono "porquê?". Lá vem a santa socialização, o místico estereótipo que, se num longínquo passado estivéssemos, faria de mim uma das mulheres mais elegantes à face da terra, simplesmente por ter curvas e não me fazer compor apenas por um pouco de carne, pele e osso.
Não é curioso como tudo é uma questão de perspectiva e contexto?
Há uns dias pus-me a olhar para fotografias de há uns poucos anos. Pus-me a olhar para mim, 2 anos mais nova do que agora. Naquela altura, tal como agora, achava que estava gorda. Achava que qualquer pessoa que olhasse para mim ia dizer algo como "é gira, pena ser gordinha". Agora, passados esses 2 anos, aquela miúda estava um espanto! Tudo no sítio. Principalmente aquele sorriso que não lhe saia da cara e que ela nem sabia notar. Deixou-se levar pelo pouco mau que ouvia por ouvir de quem vinha, e não soube nunca o que tinha. Até passarem 2 anos. Perspectiva e contexto, dizia eu.
Vivo assim duas guerras diárias: a primeira contra a minha tendência natural para engordar, que resulta tão só e apenas da minha tendência natural para comer demasiado; e a segunda contra a influência que o aspecto físico tem na minha vida, contra todas as limitações que a minha cabeça me impõe por o meu corpo não caber dentro do estereótipo. 
Vou com isto deixar de tentar pertencer à classe dos estereotipados? Não. Porque os meus padrões são esses e são tão mutáveis como a sociedade na qual vivo. A solução será continuar as duas lutas. E esperar novas distâncias, novos contextos e novas perspectivas. Porque nada nos basta em nós. Só aquilo que já fomos ou aquilo que almejamos ser. Sempre à distância, sempre fora do contexto, sempre noutra perspectiva.

3 comentários :

  1. Micael Dourado7/7/15 13:16

    It's funny cause I was just thinkin about this subject myself. By the way, adorei o "é gira, pena ser gordinha".. Ó mulher, não és gordinha nem aqui, nem na China. És linda.

    Big kiss

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    1. Todos nós pensamos sobre isto em algum dia das nossas vidas :)
      Obrigada, babe.

      Saudades <3

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  2. Desde que tu te aceiteis como és, é o inicio de da tua felicidade.
    Adorei o post, dizem verdades que são ditas pela comunidade de hoje em dia.
    Beijinhos :)

    http://liveloveandlaught4.blogspot.pt/

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