Verdadeira (im)perfeição

A vida não é perfeita. De todo. Mas uma mulher tem que o ser - senhores, sobre vós, apenas um de vós poderá falar.

Uma mulher tem que ser tudo: inteligente, bonita, o exemplo em cada um dos seus papéis sociais, uma verdadeira musa inspiradora para qualquer outro ser vivo. A mulher acaba por se querer sempre como alguém que se deseja desesperadamente ou se inveja dolorosamente. E, dizia eu, como não há perfeição em nada que às mãos do homem seja criado, passamos a vida a tentar ocultar defeitos e a enaltecer virtudes. Assim, estará a receita para se ser uma (falsa) mulher perfeita na aprendizagem dos maiores e mais refinados truques da ilusão?
Passo grande parte da minha vida a defender a "ferro e fogo" que a verdade é sempre a melhor política; que se toda a gente fosse honesta, começando por si mesmos, haveria todo um melhor mundo no qual viver. Mas afinal de contas não estarei também a praticar os meus pequenos espectáculos? Ninguém expõe ao mundo as fotografias que mostram aquele sinal, aquela ruga, aquela banha, aquela cicatriz, aquela cena embaraçosa que rezamos que todos os presentes já se tenham esquecido. Não estamos dispostos a mostrar a verdade a esse ponto, em nome da perfeição. Ao invés disso passamos a vida a colocar filtros. "Para ficar mais bonito".
Será a vida uma grande peça teatral com um "sem número" de personagens e actos? Só há uma coisa que me faz continuar a acreditar que não: amor. Quando realmente adoramos alguém acabamos por deixar cair todas as máscaras e mostrar o rosto que veste cada personagem. São os intervalos desta peça, os que passamos entre família e amigos, que me convencem de que vale a pena continuar a apregoar a verdade em todas as coisas. Porque quando estamos com estas pessoas, com estas pouquíssimas dezenas de pessoas, tudo é autêntico. E mesmo que a peça seja do mais extraordinário que pode haver à face da terra, do que valeria sê-lo se ninguém houvesse para a comentar depois?
Então não precisamos iludir as pessoas que amamos. Mas e quanto à restante massa de seres racionais (ou assim se dizem) no mundo? A perfeição é uma utopia, mas também é uma ferramenta de protecção face à selva em que vivemos. Para sobreviver na civilização precisamos de poder, e esse joga muito com a perfeição. Por outro lado, como estamos à espera de conhecer pessoas compatíveis com os nossos interesses se estamos tão preocupados em sobreviver à sombra de uma perfeição imaginária? - só esta pergunta me daria para gastar um teclado, por isso deixamos esta matéria para outra ocasião.

Vou encontrar-me sempre neste paradoxo. A verdade pode então coexistir com a perfeição, sendo que a perfeição não existe. Por isso direi que a verdade é a melhor opção, mas o ilusionismo terá que ser utilizado - com maior frequência.

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