Quando a História nos (re)encontra

À semelhança de outras colónias em África, no final da década de 50 Portugal lutava para manter os seus territórios na Índia. Como tal, alguns milhares foram destacados para manter o território como forma de manifestar a não intenção do Estado português em negociar ou simplesmente entregar aqueles pontos comerciais privilegiados aos indianos. Um destes militares era o meu avô paterno.

No meio de tamanha confusão política e social, ele encontrou em Goa o apoio incondicional do seu Comandante e da esposa (que na altura acompanhavam os maridos para as missões). Este casal acompanhou o meu avô como se fosse um filho. Davam-lhe tudo o que ele precisava sem pedirem nada em troca e permitiram assim que todo o pouco dinheiro que ele recebia pudesse trazer para casa.

Em 1961 a crise estoirou. Todos os militares portugueses foram capturados e feitos prisioneiros duas semanas depois das mulheres terem sido enviadas de emergência para Portugal. Tal como todos os outros, o meu avô e o seu comandante foram também capturados. Ainda que em situações como esta, os militares são tratados de forma diferente consoante o posto. O comandante naturalmente não seria colocado junto de todos os outros militares, ficaria junto dos restantes oficiais. Mas o meu avô era um simples soltado que se juntaria à massa. Porém, por protecção do comandante, não foi isso que sucedeu. O meu avô ficou junto dos oficiais pela ligação que tinha ao comandante, e junto dele permaneceu até ao regresso.

Eu não imagino o que terá sido estar 6 meses preso na Índia ou não saber se o meu marido está vivo ou morto. São experiências que, felizmente, não creio que se voltarão a repetir. Mas também já não se vive aquilo que ontem tive o prazer de testemunhar. Passados cerca de 30 anos sem se verem, este casal e o meu avô tiveram o reencontro mais bonito que já vi. Tantas histórias partilhadas, tantas memórias revividas. Desde o 605 que roubava mas que se foi corrigindo, à máquina fotográfica enterrada na terra para não ser confiscada ou até mesmo ao exemplar dos pratos de inox onde os soldados comiam que o comandante ainda tem guardado. Fui completamente transportada para um mundo paralelo onde o valor da palavra e a entreajuda tomam dimensões pouco vividas pelos meus pais e nunca vividas por mim.

Foi um enorme prazer ter estado presente neste reencontro e bebido uma ínfima parte de toda a sabedoria destes três senhores. Este casal é absolutamente fascinante na sua individualidade e mesmo enquanto um só, (creio ter descoberto mais um caso de amor para a vida) e entrar na casa deles é como entrar num museu vivo onde cada objecto ilustra as vivências do passado. E o meu avô é um grande Homem. Com os seus 75 anos tem uma memória de ouro e um coração igualmente brilhante. O apreço que este casal tem por ele foi apenas mais uma prova de que não estava enganada.
Mais importante do que qualquer coisa, foi findar o dia e o meu avô concretizar dizendo "para mim, este foi um dia histórico".





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